segunda-feira, 4 de maio de 2015

Íntimo das pedras

Confessei às pedras, sem medo, os medos e angústias em que vivo

e elas, paradas, caladas, guardando segredos, me ouviram…

Dividi com elas todas as minhas dores, os meus dissabores… Abri o meu livro.

E a minha alma, mesmo que fechada pro mundo, sentiu um pleno alívio.



Às pedras, são pra elas a quem eu dedico meus mais íntimos versos.








PREFÁCIO 
 (por Alufa-Licuta Oxoronga)



A intimidade do Poeta Beto Acioli e suas Pedras Existenciais

Quando nos damos a mexer nas gavetas de nossos sentimentos, quase por certo deparamos com algo conhecido que, por ter sido minuciosamente guardado, como se não quiséssemos enfrentar o que não estava exposto, desvelado, explicitado, acaba por nos estranhar a alma.  Como se este ato de mexer, ou de remexer o guardado repercutisse em nós, comichões e malevolências, suscitando factivas inconfidências, intuições ou lucilações no ser.

Beto Acioli, neste seu “Íntimo das Pedras” reverbera este mesmo sentimento, como se estivéssemos mexendo em algo que nos é conhecido, porém, suspenso ao nosso lidar. Quando ele fala “A cor que meu mundo traz desbota-se em preto e branco” nos traz a este seu mundo particular, nos convida a entrar, a participar, a interagir, a convergir de seu subjetivo vivenciar, a percebermos que “a vida querendo o mais, pinta de verde a esperança”. Beto Acioli, neste remexer subjetivo de seu fazer poético nos leva além, nos diz que, se os “Órfãos de anônimas dores versam uma vida sem tema” (...) “Melhor é sair de cena... pra não sentir os dissabores de ser feliz como uma hiena”.

Como se não bastasse nos convidar a sentir o seu mundo singular tão fortemente sentido “É nessa troca que os sonhos se fundem”, o poeta delimita o seu olhar e nos diz “Sou como um rio sem leito, árido, deserto e estreito” nos trazendo para as coisas mais internas, mais próximas, mais tênues como se fosse um respirar que se aparceira com seu eu-lírio, que, de tão sublime e ameno se faz canção, se faz rio, se faz vento, se faz mar, em uma perfeita sincronia com seu estado de ser e sentir a vida, tanto a que se vivencia pelo lado de fora, com seus barulhos, volteios e chilrear, como se fosse um “Flamboyant que encanta a vista sob o sol que aquece a vida” em sua “Paisagem de cor sanguínea”, quanto a que se vivencia pelo lado de dentro, do afinar dos afetos, dos abraços, do sentir o corpo em respiração de vida em afirmação do desejo, “Celebro as águas profundas” (...) “Ensimesmado qual um caramujo vesti-me de sol”. (...) “caminhei sem rumo, fui até o fundo da minha solidão” (...) “cada um é uma dor” (...) “quem vê meu sorriso aberto, decerto mal percebe minha aflição”.

Este “Íntimo de Pedras” é um convite, sutil, às descobertas e estranheza do ser, é uma oportunidade ímpar (e rara) de ver a alma nua de um poeta, que, como ele mesmo diz “quero morrer a cada dia” (...) “até que o pouco resto finde, até que seja só alma” e me faça “esquecer o que foi vida”, me permitindo assim “ocupar lugar no eterno”. A intencional poética de Beto Acioli exige contemplação, a grosso modo, exige um queimar de pestanas, pois não se pode lê-lo sem se ater à sua devida simbolização “descendo até o último degrau do meu interior” (...) “sei porque verti mil rios de lágrimas” (...) “hoje sou reflexo, o resto do que fui, a dor de não saber o que sou”.

E. Deschamps disse que “A poesia é uma pintura que se move e uma música que pensa”. É assim que concebo este “Íntimo das Pedras”: som, brilho, cor, vazio, solidão, vida, existência. Estrofes vivenciais na vibração de cada momento. O livro não esconde segredos indizíveis, nem gestos conspiratórios, tudo se completa e se envolve livremente, tanto ao poeta quanto à sua poeticidade, tudo se constitui em uma alegoria pessoal, se travestindo de literatura (e vida) tanto ao ser quanto a sua criação, como diz o poeta “Ainda é outono, mas depois do inverno virão as surpresas: Todos verão a primavera florear...” O andamento do livro segue a sua própria caminhadura, os seus próprios trilhos e enredos, sem se ater aos ensejos dos homens e da vida. É uma provocação explícita, um ajuntamento de ideias e desejos, que, organizado retrata uma outra realidade.
Não é nada fácil apresentar ao público um poeta de olhar além, que foge ao senso comum, que escarafuncha tanto o conhecido, quanto o insólito, o inesperado, ajustando a poética ao momentâneo, onde o silêncio permeia o ouvir, exprimindo estimulações perceptivas pontuais, exercendo assim o sentir d’alma aos movimentos mnemônicos do existir, nos fazendo íntimos de suas pedras existenciais.







 Nota  (por Antenor Rosalino)



     No raiar de cada dia temos sempre a esperança de encontrar o belo pelos caminhos de nossa sensibilidade e buscamos na natureza e no amor a nutrição do nosso ser. A poesia tem esse poder e faz até mesmo, que o irreal se torne real aos nossos olhos. E nessa trilha pelas veredas da vida encontramos a palavra sob as mais diversas formas. Quando esse encontro ocorre através da poesia, somos agraciados como se tivéssemos recebido um convite para desfrutarmos das vinhas do nosso eldorado sonhado e acalentado.
      Íntimo das Pedras traz esse enlevo enternecedor para a alma e o coração, e toda a obra de Beto Acioli tem um perfil poético de rara beleza. O seu enfoque volta-se ao encanto da natureza em sua plenitude e à natureza humana em suas nuanças.
     A sua visão de mundo se incorpora à poesia mais sensória e a sua percepção é das mais enriquecedoras para a reflexão e transcende, até mesmo quando os seus versos traduzem “autotraições” que inquietam a alma, ou quando os valores humanos são deturpados e o faz descrente da justiça terrena, como cita em “O inferno há de existir”.
     Os poemas constantes deste livro consolidam a linguagem clara e de refinado lirismo, cuja subjetividade é envolvente, o que se comprova em “Ao nada, o abraço!” ou quando seu olhar se volta ao “Apolíneo” e o poeta vive o imaginário em completa fascinação, notadamente delineada em “Aos flamboyants”, quando diz:“Sol fulgurante é manhã... /Corusca alaranjadamente / primeiro arrebol, nascente, / acendendo os flamboyants”.                                                                
     Surge assim, definitivamente, o Beto Acioli, reconhecidamente a qualquer leitor, pois sua arte e imagens poéticas o destacam entre os seus confrades contemporâneos, pois o autor não se detém nos prosaísmos banais que, por vezes, obscurecem a poesia. A fluência de sua inspiração é notável e suas rimas são empregadas com agradável musicalidade, como essa primeira estrofe de “Tristes Versos”: “Vago no complexo espaço, / buscando pra vida um nexo, / da matéria desconexo, / do nada sendo um pedaço;/ Com os apegos escassos/ rabisco meus tristes versos”.                     
          Mesmo em penumbras tristes, é encantador e rico esse vocabular que é próprio de suas raízes intuitivas e, nem por isso perde a simplicidade. Assim, Beto Acioli interpreta os diversos sentimentos que julga sentir a alma humana, exteriorizando sublime lirismo como em “Simples”, ou falando das angústias da doída saudade que sempre permeou profundamente a alma dos poetas em todos os tempos, e que o poeta define em “Contrátil”.
     Essa obra é, portanto, um encanto para as retinas que procura o belo e, percorrer esse universo poético é alimentar os nossos sentidos. Sobretudo, essa obra marca um momento supremo na vida de Beto Acioli. A sua verve poética o convergiu para a criação desses poemas que, indubitavelmente, irão demarcar os caminhos de sua poesia através dos tempos.




  Nota (por  Katharynny Gabriella)

 
O poeta das almas apaixonadas e melancólicas, Beto Acioli, traz em sua obra todo um teor romântico-sensual ao mesmo tempo em que nos leva a viajar em reflexões acerca de um mundo e de uma sociedade cega pelas futilidades. 
As pedras em seu coração estão submersas no lago de nossas próprias almas, reflete em nós, através de suas palavras, os pensamentos mais íntimos e reais de nossa vivência diária e de nossos secretos corações. Íntimo das Pedras mostra uma alma que clama por justiça, amor e paz, uma alma apaixonada pela vida, cheia de amor e sofrimento; é uma viagem no íntimo de nosso ser, expressa em palavras, que não saberíamos como usar se fôssemos nós a falar.
Com seus versos, Beto dá voz a uma realidade social cheia de conflitos e desonestidade, fala de um mundo de desamor, fala também da melancolia de relações focadas em ausência de sentimentos, encontros físicos repletos de vazio que nos fazem repensar sobre nossas atitudes perante os relacionamentos “modernos”. Mais que uma coletânea de poemas, é um retrato do mundo atual, o retrato do amor em sua forma mais intensa e mais real; é um prato cheio de reflexões, escritas em versos, cheios de sentimento por esse grande poeta pernambucano que coloca em cenário a aridez do nosso mundo de uma forma belíssima. Com as pedras de Beto, enchemos nossa alma de desejos por construir o alicerce de um novo mundo fundamentado nas pedras de ouro dos seus versos.



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