Confessei às pedras, sem medo, os
medos e angústias em que vivo
e elas, paradas, caladas, guardando
segredos, me ouviram…
Dividi com elas todas as minhas dores,
os meus dissabores… Abri o meu livro.
E a minha alma, mesmo que fechada pro
mundo, sentiu um pleno alívio.
Às pedras, são pra elas a quem eu
dedico meus mais íntimos versos.

PREFÁCIO
(por Alufa-Licuta Oxoronga)
A intimidade do Poeta Beto Acioli e suas Pedras Existenciais
Quando nos damos a mexer nas gavetas de nossos sentimentos, quase
por certo deparamos com algo conhecido que, por ter sido minuciosamente
guardado, como se não quiséssemos enfrentar o que não estava exposto,
desvelado, explicitado, acaba por nos estranhar a alma. Como se este ato de mexer, ou de remexer o
guardado repercutisse em nós, comichões e malevolências, suscitando factivas
inconfidências, intuições ou lucilações no ser.
Beto Acioli, neste seu “Íntimo das Pedras” reverbera este mesmo
sentimento, como se estivéssemos mexendo em algo que nos é conhecido, porém,
suspenso ao nosso lidar. Quando ele fala “A cor que meu mundo traz desbota-se
em preto e branco” nos traz a este seu mundo particular, nos convida a entrar,
a participar, a interagir, a convergir de seu subjetivo vivenciar, a
percebermos que “a vida querendo o mais, pinta de verde a esperança”. Beto
Acioli, neste remexer subjetivo de seu fazer poético nos leva além, nos diz
que, se os “Órfãos de anônimas dores versam uma vida sem tema” (...) “Melhor é
sair de cena... pra não sentir os dissabores de ser feliz como uma hiena”.
Como se não bastasse nos convidar a sentir o seu mundo singular tão
fortemente sentido “É nessa troca que os sonhos se fundem”, o poeta delimita o
seu olhar e nos diz “Sou como um rio sem leito, árido, deserto e estreito” nos
trazendo para as coisas mais internas, mais próximas, mais tênues como se fosse
um respirar que se aparceira com seu eu-lírio, que, de tão sublime e ameno se
faz canção, se faz rio, se faz vento, se faz mar, em uma perfeita sincronia com
seu estado de ser e sentir a vida, tanto a que se vivencia pelo lado de fora,
com seus barulhos, volteios e chilrear, como se fosse um “Flamboyant que
encanta a vista sob o sol que aquece a vida” em sua “Paisagem de cor
sanguínea”, quanto a que se vivencia pelo lado de dentro, do afinar dos afetos,
dos abraços, do sentir o corpo em respiração de vida em afirmação do desejo,
“Celebro as águas profundas” (...) “Ensimesmado qual um caramujo vesti-me de
sol”. (...) “caminhei sem rumo, fui até o fundo da minha solidão” (...) “cada
um é uma dor” (...) “quem vê meu sorriso aberto, decerto mal percebe minha
aflição”.
Este “Íntimo de Pedras” é um convite, sutil, às descobertas e
estranheza do ser, é uma oportunidade ímpar (e rara) de ver a alma nua de um
poeta, que, como ele mesmo diz “quero morrer a cada dia” (...) “até que o pouco
resto finde, até que seja só alma” e me faça “esquecer o que foi vida”, me
permitindo assim “ocupar lugar no eterno”. A intencional poética de Beto Acioli
exige contemplação, a grosso modo, exige um queimar de pestanas, pois não se
pode lê-lo sem se ater à sua devida simbolização “descendo até o último degrau do
meu interior” (...) “sei porque verti mil rios de lágrimas” (...) “hoje sou
reflexo, o resto do que fui, a dor de não saber o que sou”.
E. Deschamps disse que “A poesia é uma pintura que se move e uma
música que pensa”. É assim que concebo este “Íntimo das Pedras”: som, brilho,
cor, vazio, solidão, vida, existência. Estrofes vivenciais na vibração de cada
momento. O livro não esconde segredos indizíveis, nem gestos conspiratórios,
tudo se completa e se envolve livremente, tanto ao poeta quanto à sua poeticidade,
tudo se constitui em uma alegoria pessoal, se travestindo de literatura (e
vida) tanto ao ser quanto a sua criação, como diz o poeta “Ainda é outono, mas
depois do inverno virão as surpresas: Todos verão a primavera florear...” O
andamento do livro segue a sua própria caminhadura, os seus próprios trilhos e
enredos, sem se ater aos ensejos dos homens e da vida. É uma provocação
explícita, um ajuntamento de ideias e desejos, que, organizado retrata uma
outra realidade.
Não é nada fácil apresentar ao público um poeta de olhar além, que
foge ao senso comum, que escarafuncha tanto o conhecido, quanto o insólito, o
inesperado, ajustando a poética ao momentâneo, onde o silêncio permeia o ouvir,
exprimindo estimulações perceptivas pontuais, exercendo assim o sentir d’alma
aos movimentos mnemônicos do existir, nos fazendo íntimos de suas pedras
existenciais.
Nota (por Antenor Rosalino)
No raiar de cada dia
temos sempre a esperança de encontrar o belo pelos caminhos de nossa
sensibilidade e buscamos na natureza e no amor a nutrição do nosso ser. A
poesia tem esse poder e faz até mesmo, que o irreal se torne real aos nossos
olhos. E nessa trilha pelas veredas da vida encontramos a palavra sob as mais
diversas formas. Quando esse encontro ocorre através da poesia, somos
agraciados como se tivéssemos recebido um convite para desfrutarmos das vinhas
do nosso eldorado sonhado e acalentado.
Íntimo das Pedras traz
esse enlevo enternecedor para a alma e o coração, e toda a obra de Beto Acioli
tem um perfil poético de rara beleza. O seu enfoque volta-se ao encanto da
natureza em sua plenitude e à natureza humana em suas nuanças.
A sua visão de mundo se
incorpora à poesia mais sensória e a sua percepção é das mais enriquecedoras
para a reflexão e transcende, até mesmo quando os seus versos traduzem
“autotraições” que inquietam a alma, ou quando os valores humanos são
deturpados e o faz descrente da justiça terrena, como cita em “O inferno há de
existir”.
Os poemas constantes
deste livro consolidam a linguagem clara e de refinado lirismo, cuja
subjetividade é envolvente, o que se comprova em “Ao nada, o abraço!” ou quando
seu olhar se volta ao “Apolíneo” e o poeta vive o imaginário em completa
fascinação, notadamente delineada em “Aos flamboyants”, quando diz:“Sol
fulgurante é manhã... /Corusca alaranjadamente / primeiro arrebol, nascente, / acendendo
os flamboyants”.
Surge assim,
definitivamente, o Beto Acioli, reconhecidamente a qualquer leitor, pois sua
arte e imagens poéticas o destacam entre os seus confrades contemporâneos, pois
o autor não se detém nos prosaísmos banais que, por vezes, obscurecem a poesia.
A fluência de sua inspiração é notável e suas rimas são empregadas com
agradável musicalidade, como essa primeira estrofe de “Tristes Versos”: “Vago
no complexo espaço, / buscando pra vida um nexo, / da matéria desconexo, / do
nada sendo um pedaço;/ Com os apegos escassos/ rabisco meus tristes
versos”.
Mesmo em penumbras
tristes, é encantador e rico esse vocabular que é próprio de suas raízes
intuitivas e, nem por isso perde a simplicidade. Assim, Beto Acioli interpreta
os diversos sentimentos que julga sentir a alma humana, exteriorizando sublime
lirismo como em “Simples”, ou falando das angústias da doída saudade que sempre
permeou profundamente a alma dos poetas em todos os tempos, e que o poeta
define em “Contrátil”.
Essa obra é, portanto,
um encanto para as retinas que procura o belo e, percorrer esse universo
poético é alimentar os nossos sentidos. Sobretudo, essa obra marca um momento
supremo na vida de Beto Acioli. A sua verve poética o convergiu para a criação
desses poemas que, indubitavelmente, irão demarcar os caminhos de sua poesia
através dos tempos.
Nota (por Katharynny Gabriella)
O poeta das almas apaixonadas e melancólicas, Beto Acioli, traz em sua obra todo
um teor romântico-sensual ao mesmo tempo em que nos leva a viajar em reflexões
acerca de um mundo e de uma sociedade cega pelas futilidades.
As pedras em seu coração estão submersas no lago de nossas próprias almas, reflete em nós, através de suas palavras, os pensamentos mais íntimos e reais de nossa vivência diária e de nossos secretos corações. Íntimo das Pedras mostra uma alma que clama por justiça, amor e paz, uma alma apaixonada pela vida, cheia de amor e sofrimento; é uma viagem no íntimo de nosso ser, expressa em palavras, que não saberíamos como usar se fôssemos nós a falar.
As pedras em seu coração estão submersas no lago de nossas próprias almas, reflete em nós, através de suas palavras, os pensamentos mais íntimos e reais de nossa vivência diária e de nossos secretos corações. Íntimo das Pedras mostra uma alma que clama por justiça, amor e paz, uma alma apaixonada pela vida, cheia de amor e sofrimento; é uma viagem no íntimo de nosso ser, expressa em palavras, que não saberíamos como usar se fôssemos nós a falar.
Com seus versos, Beto dá voz a uma realidade social cheia de
conflitos e desonestidade, fala de um mundo de desamor, fala também da
melancolia de relações focadas em ausência de sentimentos, encontros físicos
repletos de vazio que nos fazem repensar sobre nossas atitudes perante os
relacionamentos “modernos”. Mais que uma coletânea de poemas, é um retrato do
mundo atual, o retrato do amor em sua forma mais intensa e mais real; é um
prato cheio de reflexões, escritas em versos, cheios de sentimento por esse
grande poeta pernambucano que coloca em cenário a aridez do nosso mundo de uma
forma belíssima. Com as pedras de Beto, enchemos nossa alma de desejos por
construir o alicerce de um novo mundo fundamentado nas pedras de ouro dos seus
versos.
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